Será possível
alguém sentir saudades daquilo que não vivenciou? Por mais estranho que pareça,
eu sinto, pois sempre me lembro com nostalgia da Copa do Mundo que, com meros
quatro anos de idade, eu não vi. Ele foi disputada no México, 1970, quando onze homens vestiram
a camisa amarela da seleção brasileira e juntos elevaram o futebol à categoria
de obra de arte.
Esqueçam tudo o que ouviram falar
do governo Médici, seus porões sangrentos e a utilização do futebol como massa
de manobra para manter o povo alienado e em seu lugar. Ignorem milagres
econômicos, Guerra do Vietnã ou o movimento hippie. Procure no Youtube a Copa de 70 e foque-se apenas nas quatro linhas que demarcaram o campo de
batalha do Estádio Jalisco, na cidade de Guadalajara. Naquele longínquo mês de
junho, o “scratch canarinho” como era carinhosamente chamada a seleção,
apresentou um espetáculo futebolístico nunca visto antes e quiçá impossível de
ser reapresentado pois, a despeito do futebol haver mudando tanto em disciplina
tática quanto nos aprimoramentos físico e técnico, as peças do xadrez eram
outras, e de qualidade infinitamente superior ao que vemos hoje.
Para começar,
havia um deus de ébano no esplendor de sua forma física, tecnicamente perfeito
e amadurecido nos seus trinta anos de idade. Pelé, simplesmente o Rei, que
conseguiu a façanha de ficar eternizado na Copa em que foi magistral não pelos
gols assinalados, mas pelos perdidos. Veja, reveja e deslumbre-se com o seu
chute do próprio campo contra a meta adversária e o desespero do goleiro theco,
ou a clássica cabeçada defendia pelo inglês Gordon Banks, jogada responsável
pela fama do arqueiro da seleção inglesa por muitos anos, ou ainda a incrível,
fantástica, esteticamente maravilhosa meia-lua sem tocar na bola contra um
goleiro uruguaio de prosaico nome polonês. No México Pelé foi perfeito, um
maestro acompanhado pelo spalla Tostão, talentoso meia do Cruzeiro que meses
antes sofrera um grave descolamento de retina e, do inferno a redenção, brilhou
em terras aztecas. Justamente no confronto mais difícil, contra o “English
Team”, consagrado campeão do mundo quatro anos antes, Tostão deixou sua marca
em uma jogada individual pelo lado esquerdo onde, após provocar um salseiro,
passou a bola para Pelé que, com um simples toque para lado, deixou Jairzinho
livre para decretar a magra, contudo heroica vitória por um a zero.
Como esquecer de
Jairzinho, o Furação da Copa? Seis jogos, seis gols, façanha nunca antes
alcançada, nosso camisa sete levou pânico as defesas adversárias com suas
arrancadas mortíferas. Tivemos ainda Rivelino e sua patada atômica; Brito
zagueiro raçudo, considerado o pulmão da copa; Carlos Alberto, nosso eterno
capitão que perpetuou o gesto de beijar a taça Jules Rimet (que como dizia o
samba-enredo “derreteram na maior cara-de-pau”); a juventude veterana de
Clodoaldo, a organização tática e os lançamentos milimétricos de Gerson, o
canhotinha de ouro; a classe de Piazza, a discrição de Félix e Everaldo.
Campanha sem
igual, coroada com a brilhante exibição na final disputada na Cidade do México.
Um 4 x 1 convincente contra a seleção italiana, tão diferente destas finais
insossas que nos acostumamos a presenciar nas últimas Copas.
Parafraseio
Pablo Neruda e confesso que não vivi o momento, não vi a maior seleção de
futebol de todos os tempos mas, graças ao milagre tecnológico, este espetáculo
está ao alcance de qualquer mortal . Aprecie
sem moderação.